Se você mesmo não se sacode, há sempre quem o faça por você

Ao som de “Being Boring”, dos Pet Shop Boys, o acaso me força a falar sobre essa hibernação que volta e meia me acomete. E é especialmente singular esse momento, porque nessa madrugada de inverno adentro eu não pretendia mesmo discorrer sobre qualquer assunto, não fosse essa obrigação vinda de um vídeo de Youtube e uma conversa de Whatsapp. Se você mesmo não se sacode, há sempre quem o faça por você – espero sentada –, e é por isso que eu acredito na legitimidade dos incômodos.

 

Eu estava conversando sobre travas e bloqueios, pensando naquela Lei de Newton que diz que um corpo parado tende a ficar parado, enquanto um corpo em movimento tende a ficar em movimento, mas, sem muita perícia ou pretensão, comentei só que se eu tenho muito pra fazer, faço tudo; se tenho pouco pra fazer, faço nada. Afinal, eu entendo muito pouco de Física e menos ainda de motivação, mas, sendo pós-doutora em Viagem na Maionese, vou imprimir aqui tudo quanto acho relevante. Ou não.

 

O ano era 2012 e eu estava estagiando, fazendo curso de francês e de inglês, comparecendo às aulas da faculdade, escrevendo meu TCC, lendo um livro por semana, acompanhando toda a trama da novela da Carminha e namorando. Viajava cerca de três horas quase todos os dias, passeava na praia, fazia as unhas, andava de bicicleta. Comia vegetais. Agora corta pra 2017, onde eu já mando rezar missa pra agradecer quando consigo entregar um texto faltando um dia para o final do prazo.

 

E pra piorar o incômodo – ou ajudar, ainda não decidi –, assisti a essa palestra em que o professor gritava empolgado: “Pra trás, nem pra pegar impulso, seu bosta!” – e que dispensa comentários. Então eu olho pra essas meias tão confortáveis nos meus pés e só consigo pensar: por que diabos a gente só se mete a ser produtivo quando já está metido a ser produtivo? São tantos os dias em que eu me sinto presidiária riscando pauzinhos na parede da cela, que até parece que eu não tenho a chave da porta da minha casa, a chave da porta da minha vida. Ora essa! Tira essas meias, garota, corre descalça pra lembrar o gosto do chão, criatura!

 

Feliz mesmo era Cássia Eller que, ainda que cansada com suas meias três-quartos, também dava conta de andar nas ruas, trocar cheques, mudar plantas de lugar, dirigir carro, tomar pileque e cantar. Haja pique pra querer ainda mais malandragem! Eu só peço a Deus...

Esse texto é uma colaboração de Flor. Flor é filha da Terra da Eterna Juventude e nunca viu ETs, mas jura para todo mundo que sua cidade é um santuário deles. Escreve de sua alma para Soul Peruíbe aos domingos.

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